sexta-feira, 10 de julho de 2020
Nota pública sobre a venda da RLAM
Tendo
em vista a nota recentemente publicada, em conjunto, pelo Ministério de Minas e
Energia (MME) e pelo Ministério da Economia (ME), bem como a nota divulgada
pela Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), ambas favoráveis ao processo de
venda das refinarias da Petrobras, incluindo a RLAM (Refinaria Landulpho
Alves-Mataripe), o Núcleo de Estudos Conjunturais da Universidade Federal da
Bahia (UFBA) por meio do Centro de Economia Política do Petróleo (Ceppetro), esclarece
os motivos pelos quais é contrário a esse processo.
Na
nossa avaliação, os principais argumentos utilizados pelo governo federal e
pela própria Petrobras para justificar a venda das refinarias não encontram
evidências empíricas segundo especialistas do setor. Na nossa visão, a venda da
refinaria trará riscos importantes para a sociedade nordestina.
Especificamente
sobre o caso da RLAM, consideramos os seguintes aspectos:
1. O principal argumento apontado pela nota
conjunta do MME e do ME é de que a venda das refinarias se justificaria pela
melhora do ambiente econômico mediante uma elevação da concorrência regional da
indústria de refino. Segundo a nota:
(i)
“O
órgão de defesa da concorrência entendeu haver elevada concentração no segmento
de refino, recomendando que a venda de ativos de refino ocorra por completo,
sem participação ativa ou passiva da Empresa no quadro societário do alienante;
e, que se promova a concorrência regional”;
(ii)
“Em
linha com as diretrizes do CADE, materializadas na Nota Técnica Nº
37/2018/DEE/CADE, de dezembro de 2018, o Conselho Nacional de Política
Energética (CNPE) tomou uma decisão histórica no sentido de promover a
concorrência na atividade de refino de petróleo no País ao aprovar sua
Resolução nº 9, de 9 de maio de 2019, com o objetivo de estimular a entrada de
novos atores e atrair investimentos para o setor. Como resultado desse
processo, há uma expectativa de maior concorrência no fornecimento primário de
combustíveis”. 1. Um argumento adicional fornecido pela Fieb
seria de que, no momento de auge de exploração do pré-sal, a venda da RLAM
seria importante para atrair investimentos e aumentar o mercado competitivo da
RLAM. Segundo a nota da Fieb:
(i)
“Entendemos
o movimento de venda do controle da RLAM como positivo para o país e,
especialmente, para a economia da Bahia. A Petrobras hoje foca seus esforços na
exploração do pré-sal, atividade mais rentável para a empresa”;
(ii)
“(...)
a nova empresa (...) irá competir e conquistar novos mercados”.
2. Tais argumentos utilizados pelo MME, ME
e pela Fieb não encontram respaldo nos principais estudos realizados até o
momento sobre a atual estrutura do mercado de refino no Brasil e as possíveis implicações
dessas vendas.
3. Recente estudo promovido pelo
Departamento de Engenharia Industrial (DEI) da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (PUC-RJ) concluiu que há uma perspectiva moderada ou elevada
de que as vendas das refinarias do Rio Grande do Sul (Refap), do Paraná
(Repar), de Minas Gerais (Regap), da Bahia (RLAM), de Pernambuco (Rnest) e do
Amazonas (Reman) resultem em um estabelecimento de vários monopólios regionais
privados. Dadas as elevadas restrições de ingresso de produtos de outros
fornecedores, há um risco de que a transferência da propriedade não estimule a
concorrência, uma vez que não há infraestrutura logística nos diferentes modais
para transporte de produtos.
4. Especificamente sobre o caso da RLAM, o
estudo do DEI/PUC-RJ considera que há uma perspectiva elevada de formação de um
monopólio privado na região onde a refinaria atua. De acordo com o DEI/PUC-RJ:
(i)
“Há
uma alta probabilidade de estabelecimento de monopólio regional privado no
estado da Bahia. Restrições logísticas para ingresso na área de influência da RLAM
de produtos de outras refinarias e/ou importados, com exceção do norte do
estado da Bahia, que poderá sofrer pressões competitivas da Rnest”;
5. Ainda sobre o caso da RLAM, o estudo do
DEI/PUC-RJ acrescenta que há um risco adicional de desabastecimento do mercado,
caso o novo comprador tenha como direcionamento o mercado. Isso poderia
inclusive tornar uma parte do mercado dependente das importações de derivados.
De acordo com o estudo:
(i)
“Há
risco de desabastecimento e/ou elevação de custo caso o comprador decida
exportar produtos”;
6. Um estudo realizado recentemente pelo
Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis
(Ineep) aponta que um outro limitador para um aumento da concorrência no
mercado de refino é o perfil bastante diferenciado entre as refinarias da
Petrobras. Isto é, cada refinaria da Petrobras tem um mix de produção de
derivados diferente, o que impede a concorrências entre elas. O estudo do Ineep
analisou a situação do mercado do Nordeste:
(i)
“No
Nordeste, as três refinarias colocadas à venda têm estruturas produtivas bem
diferentes. Em 2019, a produção da Lubnor se concentrou em asfalto (45%). A
produção da RLAM se dividiu em óleo diesel (35%) e óleo combustível. A produção
da Rnest, por sua vez, se concentrou em óleo diesel (66%) e em nafta (15%).
Além disso, existem derivados somente produzidos pela Rlam, como gasolina.
Nesse quadro, para a grande maioria dos derivados não existiria competição pelo
simples fato de algumas refinarias não produzirem determinados derivados ou
pela estrutura das refinarias estarem concentradas na produção de diferentes
tipos de derivados”;
7. Cabe ainda ressaltar, ao contrário do
afirmado pela Fieb, que não é possível garantir que um novo comprador realize
investimentos para ampliação da Rlam, principalmente se levarmos em conta os
principais candidatos à compra da refinaria. Todas os candidatos são
corporações estrangeiras interessadas no óleo de combustível produzido pela RLAM
para atender as demandas internacionais nesse tipo de combustível. Há um risco
de que a RLAM se torne uma refinaria mais especializada na produção de
derivados escuros para atender o mercado externo e foca no mercado nacional de
diesel;
Em suma, acreditamos que há cinco
potenciais riscos com a venda da RLAM: (i) risco elevado de formação de um
monopólio privado regional; (ii) risco de que não seja ampliada a concorrência
no Nordeste pelos diferentes perfis das refinarias (ii) risco de
desabastecimento; (iii) risco de gerar uma dependência das importações; e (iv)
gerar uma especialização ainda maior na produção de determinados tipos de
derivados.
Por todas essas razões, acreditamos que
os objetivos esperados com a privatização da RLAM não serão alcançados e,
adicionalmente, que são grandes os riscos de piora das condições competitivas e
econômicas do mercado de refino no Nordeste.
Núcleo de Estudos Conjunturais da
Faculdade de Economia da
Universidade Federal da Bahia
(NEC-FE/UFBA)
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